04 de julho de 2017

O futuro das cidades

Smartphones, smart-tvs, carros smart, smart cities. A inteligência (“smart”, em inglês) nunca esteve tão presente no nosso dia a dia quanto ultimamente, desde os nossos dispositivos eletrônicos, passando pelos nossos próprios carros, tudo agora funciona com o máximo de tecnologia, como mais uma forma para facilitar a nossa vida. A “tendência” hi-tech e seus benefícios chegou inclusive no desenvolvimento e administração das cidades: as smart cities ou cidades inteligentes são um novo modelo de organização do ambiente em que vivemos.

Parece uma jogada óbvia para quem já se adapta a um ambiente tecnológico, mas a reconstrução das cidades de forma mais eficiente e inteligente é um desafio necessário para se enfrentar. Ao longo da nossa história vivemos diversas situações que nos  colocaram na obrigação de encontrar novas saídas e soluções.O  principal objetivo das cidades inteligentes é justamente esse: superar os problemas que o passado proporcionou criando um futuro mais prático e capaz de enfrentar novos desafios.

As smart cities são as cidades do futuro (aliás, veremos mais para frente que esse futuro já começou). Segundo o Instituto Francês de Estudos Demográficos, até 2050, a estimativa é que o número de pessoas no mundo cresça em 2,5 bilhões de habitantes. Ao mesmo tempo em que nossos recursos hídricos e energéticos diminuem a cada dia, nossos territórios tornam-se cada vez mais ocupados. A ideia de aldeia global nunca foi tão verdadeira: a previsão é que até 2050 pelo menos 97,5% da população mundial esteja conectada através de uma internet livre e de fácil acesso, incluindo os habitantes das regiões mais remotas e menos favorecidas. Nós vamos usar cada vez mais dispositivos conectados a uma rede única: roupas chipadas, relógios inteligentes, óculos com acesso à  internet e que nos permitem acesso inclusive a uma realidade virtual.

A pergunta que se faz, portanto, é: quais os passos para acompanhar as mudanças no mundo?

Comecemos pelo que é, talvez, o maior desafio: resolver nossos problemas de mobilidade. Com o crescimento da população das cidades, é inevitável que mais pessoas precisem se deslocar nos centros urbanos e, portanto, procurem novos meios de transporte.  As cidades, no entanto, não estão  organizadas suficientemente para atender essa demanda. Resultado? O agravamento de problemas que já são bastante conhecidos:engarrafamentos,  acidentes, além do aumento significativo da emissão de CO2. Para melhorar esse cenário ,  algumas soluções já estão sendo desenvolvidas:

  • o uso de carros autônomos parece uma alternativa bastante relevante para trazer mais segurança ao trânsito. . Especialistas apontam que quando essa tecnologia passar a ser adotada o número de acidentes será reduzido de 1/100 mil km para 1/10 milhões de km, salvando um milhão de vidas por ano, em todo o mundo.  

  • a otimização das redes de transporte de público promete incentivar o uso dos meios coletivos, diminuindo o trânsito nas cidades;

  • os carros elétricos  estão deixando de ser tendência e se tornando uma realidade ao redor do mundo: são mais econômicos e reduzem a zero as emissões de gases poluentes à atmosfera . Londres, por exemplo, pretende substituir todos os seus táxis por carros elétricos até 2018!

  • aumentar as restrições aos carros e diminuir as vias disponíveis para tráfego de veículos é, inicialmente, uma ideia que parece mirabolante: como menos espaço diminuiria o trânsito? O objetivo é incentivar que mais pessoas tornem-se pedestres e ciclistas, utilizando áreas livres para andar e ciclovias como uma alternativa de deslocamento. A tendência, além de ser mais barata, é um passo para uma vida mais saudável (uma outra característica incentivada pelas  cidades inteligentes).

Nós precisamos também aprender a ocupar o nosso território de forma mais inteligente: 

  • os bairros vão ser cada vez mais integrados, o objetivo é evitar a necessidade de deslocamento, possibilitando que as pessoas possam encontrar os serviços necessários mais perto de suas casas;

  • os prédios serão mais altos (muito mais!). Hoje, o prédio mais alto do mundo é o Burj Khalifa, com 163 andares. A previsão é que em 2050 tenhamos prédios de até 28 quilômetros de extensão, com até 8 mil andares.  Com milhares de moradores em um só prédio, muito espaço seria economizado, mas aí surge outro desafio: é seguro se deslocar através de elevadores por distâncias tão altas? A Samsung já está trabalhando na solução e desenvolvendo drones  capazes de se deslocar até os andares mais altos.

Além disso, a moda dos recursos não-renováveis já é passado faz tempo. A tendência nas novas cidades é a utilização da energia fotovoltaica, aquela proveniente da luz do sol. Essa forma de produção de energia elétrica é barata e eficiente, já que depende unicamente da captação da energia que o sol transmite através da sua radiação. Além disso, utilizar a energia solar possibilita mais uma vez reduzir nossos danos ao meio ambiente: um metro quadrado de células fotovoltaicas produzem o equivalente à 215 quilos de lenha, 66 litros de diesel, 55 quilos de gás e evita que 56 metros quadrados sejam inundados para produção de energia hidroelétrica, segundo a Associação Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Ventilação e Aquecimento (ABRAVA).

Sonho distante?

A primeira vista, essas cidades parecem um sonho que dificilmente vai ser alcançado, mas, na verdade, as cidades inteligentes já são uma realidade em algumas partes do mundo. O desafio de alinhar tecnologia e sustentabilidade para uma vida mais prática já está sendo colocado em prática com sucesso em certas cidades.

O jornal “The Guardian” classificou Songdo, na Coreia do Sul, como a primeira cidade inteligente do mundo. Songdo começou a ser construída ao redor de um aeroporto em 2005 e passou a ser habitada em 2011, mas o previsto é para que ela fique completamente pronta em 2018. A primeira smart city tem aproximadamente 1.500 quilômetros quadrados e foi planejada para 40 mil habitantes. A cidade conta com todos os “critérios” necessários para ser uma smart city, com opções de mobilidade com transporte elétrico e aquático; sistemas de lixo inteligentes, iluminação urbana e semáforos completamente controlados por computadores e sistemas tecnológicos. Além disso, a cidade teria sua eficiência energética baseada em energia solar e fotovoltaica; com 40%  de área dedicada para construção de parques e praças, a fim de controlar o equilíbrio e a qualidade do ar, e para oferecer opções de lazer para seus habitantes.

Masdar, em Abu Dhabi, um dos Emirados Árabes, é outra cidade que está nascendo como uma smart city. Com o início da sua construção em 2006, Masdar é um projeto de uma smart city focada na gestão sustentável, com o objetivo de zerar suas emissões de gás carbônico - tornando-se uma referência a todo Oriente Médio. A universidade da cidade se dedica a uma pesquisa especializada em buscar soluções na área da energia e sustentabilidade e trabalha em parceria com as empresas da região, usando as novas tecnologias no mercado e ajudando no crescimento econômico do projeto. Masdar foi projetada com 6.000 quilômetros quadrados para 50 mil habitantes e 1.000 empresas especializadas em energia sustentável. A smart city será alimentada com energia fotovoltaica, produzida por painéis  solares instalados no topo dos prédios e pela fazenda solar de 22 hectares, que reúne 87 mil painéis, com capacidade para gerar até 17.500 MWh de eletricidade limpa por ano.

Se parece fácil iniciar uma smart city do zero, temos o exemplo de Singapura - que é um exemplo de transformação desde 2012. A cidade-estado tem 704 quilômetros quadrados e 5 milhões de habitantes e é densamente povoada, por isso, surgiu nas autoridades a preocupação de replanejar a infraestrutura, a conservação ambiental e a captação de água. Os distritos tornaram-se auto-suficientes, evitando o deslocamento e aproveitando o espaço da melhor forma possível. Além disso, os bairros passaram a ser interligados por uma rede de transportes públicos, diminuindo o tráfego e a poluição. O trânsito conta com um sistema que consegue prever engarrafamentos antes mesmo dele acontecer, permitindo encontrar saídas preventivas para o problema. O investimento para o crescimento da cidade continua: só é permitida a entrada de indústrias que proporcionem o crescimento local e que não contribuam para a poluição do meio ambiente.

Amsterdã também está sendo contemplada por um projeto para transformá-la em uma smart city. O projeto foca na produção de energia atraveś de uma fonte limpa, a eólica. Nos transportes, existe uma preferência pelo uso da bicicleta e dos transportes públicos com baixa emissão de carbono, usando motores elétricos. A concepção de trabalho também está sendo mudada: já comum em algumas áreas da Holanda, o trabalho comunitário é muito valorizado - a ideia é diminuir o impacto proveniente das atividades diárias na vida dos trabalhadores e desenvolver uma cultura de consumo colaborativo.

Construir uma smart city parece algo que exige um grande investimento financeiro por parte das cidades, não é mesmo?  Mas, contrariando essa percepção, está sendo construída aqui no Brasil, a primeira cidade inteligente do mundo voltada para pessoas de baixa renda. Em São Gonçalo do Amarante, no Ceará, está nascendo o Laguna EcoPark, uma iniciativa de duas organizações italianas (a Planet e a SocialFire) em parceria com o Centro de Empreendedorismo da Universidade de Tel Aviv (StarTAU). A intenção é fazer com que as pessoas saiam do subúrbio para viver em um área desenvolvida, com internet de qualidade, sistema de transporte com bicicletas, reaproveitamento de água e controle inteligente de iluminação pública. A primeira etapa do projeto deve ficar pronta ainda este ano, oferecendo 150 casas e cursos de prevenção médica, nutrição, informática e horta compartilhada, com o objetivo de integrar cada vez mais o espaço.  

Fonte: Ana Luiza Morette | PARAR Fleet Review 11ª Edição
Notícias tags:
Ver todos os conteúdos