A crise dos semicondutores abalou o mercado de carros novos, com queda na oferta e aumento de preços, gerando impactos na gestão de frotas. 2022 será um ano desafiador para o setor automotivo, esse é o momento ideal para repensar modelos e buscar formas de acelerar a transformação no setor.
A necessidade de se reinventar, ressignificar situações e a tomar novos rumos não se limita apenas aos setores humanos. Muito pelo contrário. É uma premissa que se aplica também ao universo mercadológico, o que inclui a indústria automotiva. O setor tem se deparado com uma série de desafios, que impactam diretamente a gestão de frotas e outras áreas. Diante de um cenário desafiador, a reinvenção é uma das palavras de ordem.
Um dos maiores problemas enfrentados é a crise dos semicondutores, que se acentuou no decorrer de 2021. A escassez global do chip (que conduz corrente elétrica), causada pela pandemia de Covid-19, gerou uma drástica diminuição na oferta de veículos novos.
Tudo começou no início da pandemia, quando houve uma desaceleração na produção de veículos, inclusive com o fechamento de fábricas. Com isso, diversas montadoras suspenderam as encomendas dos semicondutores. Porém, enquanto a procura despencou por parte das montadoras de veículos, cresceu a busca do item pelo mercado de eletrônicos, uma vez que é usado em diversos produtos, como smartphones, televisores, videogames, computadores, entre outros. A produção foi direcionada a estes segmentos, que estiveram em alta na pandemia.
Para agravar a situação, em março deste ano, aconteceu um incêndio na fábrica de chips da Renesas Electronics, no Japão. A fábrica, que responde por 30% da produção mundial do material, pegou fogo devido a uma sobrecarga elétrica, acentuando ainda mais a escassez global de semicondutores.
Quando a indústria automobilística voltou a aumentar o ritmo de produção e quis retomar as encomendas, encontrou o mercado de semicondutores sobrecarregado com a alta demanda dos outros mercados e pelo incêndio na fábrica. Conclusão: foi para o final da fila.
“A falta de semicondutores não é uma realidade somente do Brasil. O mundo inteiro está enfrentando o problema. Com isso, tem-se uma menor produção de veículos pelo mercado, o que gera uma diminuição na oferta de carros, enquanto a demanda continua a mesma. Dessa forma, há um aumento de preços de veículos novos, colocando o mercado de carros usados em alta”, afirma Milad Neto, diretor de desenvolvimento de negócios da Jato Dynamics.
A diretora executiva da Automotive Business, Giovanna Riato, acrescenta que a crise dos semicondutores também acarreta na falta de alguns modelos no mercado, além de uma fila de espera para adquirir veículos novos. “Algumas fábricas estão favorecendo modelos que têm menos tecnologia embarcada”, observa.
Para se ter uma ideia do impacto da crise, segundo a Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis (ABLA), as locadoras deixarão de comprar cerca de 400 mil veículos em 2021. “Até 250 mil veículos deixarão de ser fabricados no Brasil em 2021, e no mundo este número varia entre 7 e 9 milhões de veículos. Ainda assim, vale destacar que teremos um crescimento de 22% na produção de carros em relação a 2020, que foi um ano muito ruim por conta da pandemia. Porém, o volume atual ainda é bastante insuficiente e o cenário crítico”, aponta Giovanna.
Diante disso, as consequências começam a chegar e inevitavelmente esbarram nos gestores de frotas. Um dos reflexos é uma frota mais envelhecida. Antes da pandemia, a “idade” média dos veículos girava em torno de 14 e 15 meses. Atualmente, é de 20 meses.
Segundo Milad Neto, os gestores de frotas também têm se deparado com um razoável aumento de custos, tanto na aquisição de veículos, quanto para manter as manutenções preventivas e corretivas dos carros da frota.
Tecnologias contribuem para driblar os desafios
Sem dúvidas, diante do cenário atual, as tecnologias veiculares tornam-se ainda mais essenciais e um caminho interessante para os gestores driblarem as adversidades apontadas pelos especialistas. Isso porque as soluções tecnológicas oferecem ao gestor informações detalhadas e relevantes sobre os veículos e os condutores da frota, dando suporte para decisões assertivas, capazes de gerar economia, segurança e organização.
É justamente essa a orientação de Milad Neto. “Recomendo que o gestor tenha um controle total de todos os processos e custos, procurando uma empresa capacitada para auxiliar em todas essas questões”.
Na visão de Giovanna, a situação é global e o Brasil tem a oportunidade de se destacar com soluções mais criativas e inovadoras, uma vez que tem um histórico de superação de crises. “As frotas são porta de entrada para uma revolução automotiva. O momento é de repensar modelos. Talvez seja hora de olhar para tudo isso e entender o que de fato são soluções relevantes”, destaca, acrescentando que os grandes frotistas são potencializadores de tecnologias e uma conexão entre a indústria e o mercado.
A pergunta que deve ser feita, na opinião dela, é: diante disso, de que forma os frotistas e a indústria automotiva podem acelerar essa transformação? O diretor geral da Volvo Cars e presidente da Associação Brasileira das Empresas Importadoras e Fabricantes de Veículos Automotores (Abeifa), João Oliveira, acredita que tudo na vida se transforma e entra em novas etapas. “Aprender com as fragilidades e ter uma visão de longo prazo é muito importante. Está acontecendo uma revolução na indústria automotiva”, conclui.
Final da crise e novas perspectivas
A agência de classificação de risco Fitch Ratings, aponta que a crise dos semicondutores e o problema de fornecimento devem continuar durante todo o ano de 2021. Perspectivas mais otimistas acreditam que o mercado automobilístico pode voltar a operar mais próximo da normalidade somente no segundo semestre de 2022 ou apenas em 2023.
Para termos uma noção do que isso significa, a diretora executiva da Automotive Business, Giovanna Riato, revela que um carro padrão atualmente conta com uma média que varia entre 200 e 300 semicondutores. “Até 2030, 20% do custo de materiais de um carro será de semicondutores. O mundo precisará de mais fábricas de chips”, dispara.
Até lá, novas opções de serviços virão à tona. Para Giovanna, a gestão de frotas deve ganhar novos concorrentes, sendo um mercado em ascensão. Está tudo em constante movimento. “Nos últimos anos, montadoras abriram empresas, marcas de carros por assinatura, locadoras de veículos. Estamos notando que o modelo de aplicativos de transporte está em xeque. O número de motoristas caiu 25% somente em 2021. Será que o futuro está em frotas próprias?”, questiona.
De olho no futuro: afinal, o que está por vir?
E o que mais podemos esperar para o futuro do mercado automobilístico e de frotas? “Primeiramente, a indústria tem que atender os anseios dos consumidores. Trazer melhor design, tecnologia e baixo custo. Será grande o desafio dos próximos anos”, prevê Milad Neto, diretor de desenvolvimento de negócios da Jato Dynamics. Ele acrescenta que a questão de eficiência energética também fará parte do futuro. “Os carros autônomos são uma realidade distante, que têm muitas barreiras a serem derrubadas. Os elétricos tiveram aumento nas vendas, mas ainda representam uma pequena parcela. Corresponde a menos de 0,2% do total da frota nacional”, diz, pontuando que os veículos híbridos serão indiscutivelmente uma tendência.
Se o assunto é o futuro do mercado, para o diretor geral da Volvo Cars e Presidente da Abeifa, João Oliveira, alguns temas são tendências incontestáveis, sendo eles eletrificação, conectividade e segurança. “A conectividade traz uma oportunidade de controle e redução de custos na frota. A segurança é um tópico que nunca vai sair de pauta, ainda mais com dados alarmantes como o da OMS que mostra que 1 milhão e 200 mil vidas são perdidas por ano no trânsito em todo o mundo”, diz, finalizando que teremos uma gestão de frotas mais eficiente, com custos melhores e mais reconhecida.
Fonte: Paula Bonini, para a 22ª edição da PARAR Review