“O conceito criado pelo expert Renato de Castro aponta maneiras simples de solucionar os problemas urbanos e dar mais qualidade de vida aos seus habitantes”

Transporte compartilhado, inteligência artificial, internet das coisas são ferramentas que se tornaram possíveis graças ao avanço tecnológico. Elas são fundamentais para melhorar a vida nas cidades, já que oferecem soluções para grandes problemas urbanos.
Mas a tecnologia por si só não é suficiente para tornar as cidades mais inteligentes. De acordo com o expert em smart cities Renato de Castro, ela precisa estar aliada a outros elementos para ser capaz de tornar as cidades mais eficientes para seus habitantes. O brasileiro que é referência mundial no assunto e já esteve em mais de 30 países palestrando sobre projetos urbanos inteligentes falou ao Blog do PARAR.
PARAR – O conceito de cidades inteligentes vem mudando ao longo do tempo. Qual é o mais adequado atualmente?
RENATO DE CASTRO (RC) – A ideia de cidades inteligentes começou na década de 1980 e vem evoluindo junto com a sociedade. É um conceito que sempre esteve, e sempre estará, atrelado à tecnologia. Esse é um dos pilares. Outro pilar é o foco no cidadão. Os problemas são causados por ele, é ele quem sofre os reflexos e ele pode ser parte da solução porque vai ser o grande beneficiário no final. E o terceiro pilar desse conceito é a qualidade de vida nas cidades, que também deve ser foco das soluções. A grande novidade é que agora é preciso considerar ainda as novas economias: economia criativa, economia compartilhada, economia circular e, principalmente, o movimento de co-criação da sociedade com empresas e governos.
PARAR – Esse conceito se aplica apenas às grandes cidades ou uma cidade pequena também pode ser inteligente?
RC – Até pouco tempo atrás, o conceito de cidades inteligentes era aplicado apenas a metrópoles. Hoje busca-se a resiliência com a ideia de cidade inteligente e isso serve tanto para cidades grandes quanto pequenas. Um dos principais problemas urbanos no mundo inteiro foi a migração da área rural para urbana. A Índia, por exemplo, ainda tem 55% de área rural, mas existe a previsão de que 300 milhões de indianos vão migrar das pequenas para as grandes cidades nos próximos 30 anos. Por isso, já se fala muito por lá em smart villages, ou seja, o conceito de cidade inteligente aplicado a pequenas cidades.
PARAR – Você criou um conceito de cidades com comportamento de startups. Que conceito é esse?
RC – É o conceito de city smartup: a mentalidade das startups na construção de cidades inteligentes. Hoje, o gestor público tem que pensar como CEO de uma startup e existem quatro passos para isso: 1) Ele precisa de um pitch, uma apresentação curta que venda a sua ideia. Uma startup tem pitch para atrair investidores. Uma cidade precisa se vender tanto para o cidadão que paga imposto quanto para investidores externos; 2) Apostar na simplicidade. Não adianta pensar em planos mirabolantes porque as soluções viáveis podem ser muito simples; 3) Buscar parcerias com a iniciativa privada; e 4) Buscar parcerias público-privadas com pessoas.
PARAR – Como essas parcerias funcionam?
RC – Quem está fazendo cidades inteligentes hoje não é o governo, é a iniciativa privada. Então, não pergunte qual seu orçamento para fazer uma cidade inteligente, mas o que sua cidade pode oferecer em troca para atrair parcerias que solucionem os problemas. Foi o que fez o Rio de Janeiro, que precisava de informações sobre o trânsito em tempo real para alimentar o Centro de Operações e Comando e fez parceria com o Waze. Em troca, a empresa pôde testar suas soluções no trânsito do Rio. Da mesma forma, é possível encontrar soluções em parcerias com o cidadão, nas chamadas parcerias público-privadas com pessoas. A cidade italiana Bastia di Rovolon tem cinco mil habitantes e sua população queria um sistema de câmeras de segurança, mas a prefeitura só tinha verba para nove câmeras. À época, eu estava dando consultoria para uma empresa de inteligência artificial que fabricava câmeras que monitoravam e previam com 70% de acerto as brigas dentro das prisões. Convidei-os para testar essa tecnologia em um ambiente urbano. Os cidadãos compraram essas câmeras para suas casas, com desconto, e forneceram as imagens para que a empresa monitorasse o perímetro.
PR – Então, o processo de construção de uma cidade inteligente precisa envolver toda a sociedade?
RC – Para um projeto de cidade inteligente bem-sucedido, é preciso envolver pelo menos cinco segmentos: o poder público, que teoricamente é quem coordena o processo; a iniciativa privada; as universidades, que contribuem muito com o conhecimento; o terceiro setor, que representa a parcela da sociedade não necessariamente ligada ao lucro; e o cidadão. Quando o poder público ou a iniciativa privada sentam à mesa, eles não pensam como o cidadão. Por isso, ele tem que ser parte do processo. Democracia é isso.
PARAR – Como o Brasil está posicionado nesse processo global de tornar as cidades mais inteligentes?
RC – O Brasil não tem nenhuma cidade entre as top 10 cidades mais inteligentes do mundo. Até porque nós temos um dificultador, que são os problemas de segurança. A falta de segurança influencia a mobilidade porque você não pode deixar a bicicleta ali porque vai ser roubada, as pessoas não andam a pé ou de bicicleta porque têm medo de serem assaltadas. Aonde você vai, a falta de segurança influencia e dificulta. Mas existem algumas cidades brasileiras com vontade política para fazer algo diferente. Acho que estamos no caminho. Apesar de estar fora do país desde 2005, tenho investido bastante tempo no Brasil nos últimos anos porque vejo o ecossistema se movimentando. Temos cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Curitiba com várias áreas avançadas nesse conceito, mas com um conjunto que não se conversa. Por isso, ainda estamos atrás de cidades mais desenvolvidas como Toronto, Vancouver, Tokio, Londres, Barcelona, Seul. Mas, acho que estamos no caminho.