“Conheça a história de empreendedores da periferia que superam barreiras diárias para continuar oferecendo serviço para a própria comunidade”

“Por uma sociedade mais justa, mais próspera e menos desigual”. Esta é a mensagem ilustrada num pequeno quadro pendurado no canto da parede de um azul esverdeado do mini call center localizado na Brasilândia, zona norte de São Paulo (SP). A frase estampada no ambiente de trabalho reflete o desejo do motorista Alvimar Silva, 50, criador da Jaubra, também conhecida por ser a “Uber da periferia”.
Criada há dois anos, a Jaubra é um aplicativo de mobilidade urbana que tem por objetivo atender os moradores da Brasilândia, um dos bairros mais populosos de São Paulo, com mais de 260 mil habitantes. O aplicativo veio para suprir a necessidade de locomoção dos moradores, visto que as gigantes do transporte urbano, como Uber e 99Pop, não atendem ou oferecem pouca cobertura para a região, considerada uma área de risco.
E é pelas ruas estreitas e esburacadas, nas longas subidas e através dos becos e vielas da Brasilândia que circulam os 50 motoristas parceiros da plataforma, inclusive o Alvimar, CEO da Jaubra. O empreendedor trabalhou por seis meses como motorista da Uber. Foi quando percebeu uma demanda na região e começou a fazer corridas particulares.
Alvimar distribuiu 500 cartões de visitas pelo bairro e fez a famosa propaganda “boca a boca”. Nascido e criado na Brasilândia, o motorista já foi presidente da associação de moradores e atuou como voluntário em atividades sociais na região. O telefone do paulistano não parou mais de tocar e ele precisou delegar algumas corridas para amigos de confiança.
Como a procura só crescia, Alvimar resolveu formar uma cooperativa de motoristas do bairro, e assim nasceu a Jaubra, inicialmente batizada de Ubra, sigla para União da Brasilândia. A mudança de nome foi orientação de advogados, que consideraram mais prudente alterar a grafia para evitar possíveis processos por plágio pela Uber. Dessa forma, Alvimar explica que o “Já” veio para dar ideia da agilidade própria dos aplicativos.
O negócio começou improvisado na garagem de um amigo. A filha Aline Landim, 29, deixou a profissão de bancária e tornou-se sócia do pai. Os atendimentos são realizados por WhatsApp ou por telefone fixo, concentrados na nova central. O espaço com três salas e um mini call center foi uma das conquistas da dupla, que agora tem um local apropriado para trabalhar.
O aplicativo de corridas foi inserido na empresa pela Aline mas, no momento, está sendo sendo utilizado apenas para enviar as corridas para os motoristas. O novo app da Jaubra, agora próprio e não mais terceirizado, deve ser lançado em breve.
“Resolvi montar uma cooperativa para atender os lugares mais inóspitos da Brasilândia, onde a Uber não chega. Quanto mais eles excluem, mais eu incluo”, destaca Alvimar. “Quando comecei, não tinha noção do tamanho que o negócio ia tomar. Eu não sabia o que era uma startup, não sabia o que era empreendedorismo, e nem que estava trabalhando com impacto social”, acrescenta o empreendedor.
Após passar por dois processos de aceleração de startups, mentorias e capacitações, Alvimar sabe conhece, hoje, a importância em inserir a Brasilândia no mapa dos aplicativos de mobilidade. “O nosso trabalho é necessário para a região, tem muitas pessoas que dependem do nosso atendimento”, defende. “Queremos trazer benefícios tanto para a empresa, como para o bairro, atendendo o direito básico de ir e vir do morador”, completa.
A Jaubra realiza três mil corridas mensais e cobra R$ 1,80 por quilômetro percorrido, sem tarifa dinâmica. Depois de lançar o aplicativo, o primeiro objetivo da empresa é triplicar rapidamente o número de viagens. A empresa fica com 15% do percentual da corrida dos motoristas. Atualmente, são dez mil clientes cadastrados.
Segundo Alvimar, já foram realizadas reuniões com investidores interessados em levar o projeto para outras regiões periféricas que têm dificuldades de mobilidade parecidas com a Brasilândia. Mas, ele afirma que o foco agora é expandir a Jaubra para todas as regiões de São Paulo, com a prioridade de atender bem a periferia.
Voz e visibilidade

O empreendedorismo nas periferias sempre existiu, muitas vezes, por uma perspectiva de sobrevivência. É preciso inovar para poder se manter. No entanto, muitos desses negócios fecham as portas rapidamente, por falta de apoio, recursos e visibilidade.
A publicitária Jucileide Dias, 37, conhecida como Ju Dias, foi criada no jardim Vera Cruz, na periferia da zona sul de São Paulo. Começou a trabalhar cedo, aos 16 anos, e com a ajuda da multinacional onde trabalhava, que bancou 70% da sua faculdade, se formou em Publicidade e Propaganda pela Anhembi Morumbi.
Por 10 anos, Ju trabalhou em grandes empresas da área de comunicação e optou por morar numa área mais central da cidade. No entanto, quando ficou desempregada, em 2016, precisou voltar a morar com a mãe, agora residindo no jardim São Luís, também localizado na periferia da região sul da cidade.
“Quando eu retornei para casa, vi que muita coisa boa estava acontecendo na periferia. Existem iniciativas incríveis, o que falta é divulgação”, afirma a publicitária. De olho nessa realidade, ela criou em maio de 2017 a Bora Lá, uma agência de comunicação e marketing popular que tem por objetivo atender pequenos empreendedores locais, projetos culturais e negócios de impacto social.
De lá para cá, a agência atendeu 72 clientes. Do total, 86% são oriundos da periferia. E, desses, 80% dos projetos são encabeçados por mulheres negras. “A Bora Lá tem uma importância na vida desses empreendedores. Em ouvir o que a pessoa quer e criar a identidade da marca, do jeito que ela sonhou. Para que ela esteja empoderada para divulgar seu negócio, se identifique com ele e possa crescer através disso”, destaca a publicitária.
Após passar por dois projetos de aceleração de startups da periferia, ela conseguiu alugar um espaço próprio e sair da casa da mãe. A publicitária sonha grande e quer levar a Bora Lá para todas as periferias do Brasil. “O que eu quero é valorizar a cultura e os fazeres periféricos e contribuir para que o dinheiro da periferia permaneça lá.”
As pedras no caminho

A nutricionista Simone Rodrigues Silva fundou, em abril de 2018, a Nutrir-Si, uma empresa que vende refeições saudáveis, com baixo teor de sódio e gordura e sem a utilização de temperos industrializados. O negócio nasceu de um sonho, mas nem tudo são flores para quem resolve empreender, especialmente se for morador da periferia.
Simone reside no Jardim Irene, um bairro periférico da zona sul de São Paulo, e chega a trabalhar 16 horas produzindo as marmitas. “Mesmo assim, não consigo tirar o salário que recebia quando atuava como nutricionista na saúde pública. Estou numa fase difícil, não estou conseguindo sobreviver somente do meu negócio e, por isso, comecei a encaminhar alguns currículos”, admite.
Atualmente, Simone tem cinco clientes fixos e dez esporádicos. No cardápio, há 15 opções, entre pratos fit, low carb, vegetarianos e veganos. “Na periferia, tem muita gente com ideia boa, com vontade de fazer as coisas, mas falta dinheiro. Isso é o que faz muitas pessoas desistirem, porque elas não têm tempo para esperar o negócio dar certo”, lamenta a empreendedora.
Essa questão é pontuada também pela jornalista Monique Evelle, que nasceu na periferia de Salvador (BA). Foi lá que entendeu como as pessoas se movimentam para ganhar dinheiro e como grande parte dessa fatia está fora do mercado formal. “Infelizmente na periferia, diferente do centro e das startups de tecnologia, não existe dinheiro para errar”, diz Monique, que atua como sócia de diferentes negócios de comunicação, educação e empreendedorismo sustentável.
Neste sentido, a jornalista reforça a necessidade de incentivar negócios da periferia voltados para a própria comunidade. “Quem é do território sabe a necessidade do território. Precisamos instrumentalizar e fomentar os empreendimentos criados nas periferias para as periferias para que eles possam solucionar os problemas com mais clareza e preparo.”
Um respiro para a periferia
“Empreender na periferia ainda é uma necessidade. Não é fácil, é doído, o que ameniza as dificuldades é você estar conectado com o seu propósito.” A afirmação é de Marcelo Silva Rocha, mas ele logo diz que só os pais dele que o chamam dessa forma. No Jardim Ângela, na periferia da região Sul de São Paulo, ele é conhecido somente como Dj Bola.

O empreendedor da periferia passa por preconceito, dificuldades para conseguir crédito e ausência de apoio – visto que as incubadoras e aceleradoras não nascem nas comunidades na mesma velocidade e proporção que as ideias. Ciente dessa realidade, em 2017, o Dj Bola criou a ANIP (Aceleradora de Negócios de Impacto da Periferia), em parceria com a FGV e a Artemesia, organização pioneira na disseminação e fomento de negócios de impacto social no Brasil.
Em 2018, a ANIP acelerou 10 negócios de impacto da periferia da zona Sul de São Paulo. Cada empreendimento recebeu R$ 20 mil como investimento semente após passar por quatro meses de processo de aceleração, com encontros presenciais, acompanhamento online e conexão com mentores. Em 2019, a ideia é acelerar mais dez ideias, em um processo que vai durar oito meses.
“É preciso discutir sobre o que é empreender na periferia, falar de dinheiro, influenciar essas pessoas a se olharem como empreendedores”, pontua. “Tem muita coisa que acontece na quebrada, que com a estratégia certa e investimento adequado, pode impactar positivamente milhares de pessoas”, finaliza o DJ Bola, fundador da A Banca, uma produtora cultural social de impacto que utiliza a cultura Hip Hop para promover a inclusão e fortalecer o empreendedorismo juvenil da periferia.
💡Beatriz Pozzobon