
Apesar de ser reconhecida internacionalmente pelas questões do narcotráfico e da violência, a cidade de Medellín, capital da Colômbia, sempre sofreu por um problema grave de infraestrutura, em razão do crescimento exponencial da cidade a partir do século XX. Urbanização acelerada, migração da população do campo para cidade, destruição das redes de trens que ligavam a cidade a outras partes do mundo, democracia precária e comércio ilegal foram alguns dos fatores que levaram a cidade a uma profunda crise em meados dos anos 80.
Após enfrentar um período difícil, marcado pelas taxas elevadas de violência, em 1991 a cidade reagiu. O governo de Medellín deu início a um amplo plano de desenvolvimento institucional, que envolveu a criação de políticas públicas e um grande processo de desenvolvimento da cidade e de combate ao narcotráfico e à violência. O arquiteto, consultor de planeamento urbano e ex-diretor de Planeamento da Cidade de Medellín (2012-2015), Jorge Perez Jaramillo, contou, em entrevista exclusiva ao PARAR, um pouco mais sobre a influência da mobilidade e sobre o papel da mulher na transformação de Medellín. Confira:
PARAR: Medellín é, hoje, um exemplo internacional de sucesso em razão da sua recente transformação urbana e social. Quais eram os principais desafios que a cidade enfrentava?
Jorge Pérez Jaramillo: A segregação territorial de Medellín dificultava a criação de uma forte cidadania e de padrões humanos de dignidade e qualidade de vida, necessários para sobrevivência. O desafio, então, era desenvolver a economia sustentável, mantendo uma sociedade humana, igualitária e com qualidade de vida.
PARAR: Como se deu essa evolução?
Jorge Pérez Jaramillo: A evolução de Medellín desde o final dos anos 80, um período bastante crítico para cidade, contou com um enorme diálogo social e com a construção de um processos democrático e participativo, usando planejamento infraestrutura, arquitetura e urbanismo como ferramentas poderosas de integração, inclusão e desenvolvimento social. Por trás do sucesso da cidade está a criação de um forte, participativo e democrático desenvolvimento, usando o transporte e infra estrutura pública como ferramenta.
PARAR: Como a mobilidade transformou, na prática, a cidade de Medellín?
Jorge Pérez Jaramillo: O sistema de transporte público, incluindo o metrô e os sistemas multimodal, como bike sharing pública, por exemplo, trouxe oportunidades de inclusão, acessibilidade e integração social para a sociedade de Medellín. O desafio da cidade é continuar trabalhando nisso, fazendo com que os modais não motorizados estejam cada vez mais integrados e mais funcionais, criando novas linhas de metrô e novos teleféricos. Cuidar de como as pessoas se locomovem é a premissa básica para o desenvolvimento urbano. Nós temos usado isso como instrumento para a inclusão social, para combater a discriminação, para promover possibilidades para todos se sentirem parte da sociedade. Mobilidade é mais do que transporte, é uma pauta essencial para a criação de uma sociedade integrada.
PARAR: Qual o papel da mulher na transformação urbana e social da cidade de Medellín?
Jorge Pérez Jaramillo: Na nossa região, existe um forte e tradicional empoderamento das mulheres. Essa é uma característica da nossa sociedade, e durante as últimas 3 ou 4 décadas – após a ascensão urbana de Medellín – o papel das mulheres tem sido muito forte. A quantidade de homens que morriam por conta da violência deixou muitos lares sem a presença de um pai, então na verdade não só a nossa sociedade mas as nossas famílias são lideradas por mulheres. A cidade em si tem uma forte liderança feminina, não só a nível institucional, mas também nos bairros e nas comunidades. Se você for até as comunidades em torno de Medellín, vai ver muitas e muitas mulheres liderando organizações e projetos de participação popular para a transformação da cidade. Eu poderia dizer, então, que o papel da mulher é estratégico e muito importante para a nossa sociedade.
💡 Loraine Santos