A 20ª edição do estudo mais antigo do mercado, GAES 2019, volta-se exclusivamente à realidade do Brasil, indicando tendências, caminhos e novas perspectivas

“Global Automotive Executive Survey (GAES 2019): Brazilian Chapter” ou “Pesquisa Executiva Automotiva Global: Capítulo Brasileiro”. Um estudo que chega a sua 20ª edição e, pela primeira vez, volta-se exclusivamente ao mercado nacional. Produzida pela KPMG, a pesquisa – que este ano aconteceu em parceria com a AUTODATA -, indica tendências, traça caminhos e amplia perspectivas. E vai além. Seus dados e informações permitem rever conceitos, estratégias e até investimentos deste mercado em profunda transformação.
“É a pesquisa mais antiga do mercado, porém, nas edições anteriores, analisamos a indústria de forma global, juntamente com um time de 18 executivos no mundo”, conta Ricardo Bacellar, líder do Setor Automotivo da KPMG no Brasil, explicando que a decisão de realizar uma edição nacional foi em razão do país ter demandas e faltas específicas. “É a primeira de outras que virão. A ideia é se tornar uma publicação anual, com lançamento na virada do semestre de cada ano”, confidencia.
Para desenvolver a pesquisa, entre os meses de fevereiro e março de 2019, 256 executivos de diferentes elos da cadeia automotiva e 1.004 consumidores residentes em todas as regiões do Brasil responderam a questionários. As conclusões foram muitas, sendo algumas surpreendentes, especialmente por parte dos consumidores.
Para Bacellar, um resultado inesperado, que chamou a sua atenção, foi em relação aos veículos elétricos. A pesquisa relevou que surpreendentes 90% dos consumidores gostariam de ter automóveis desse tipo à disposição para compra no Brasil. “A ideia foi mostrar o potencial do mercado e essa foi uma surpresa”, garante.
Apesar do desejo dos consumidores, apenas 46% dos executivos concordam parcialmente que há viabilidade desta oferta no Brasil e somente 42% concordam parcialmente que há viabilidade de produção local.
O líder do setor automotivo da KPMG do Brasil, destaca que o País teria que superar muitos desafios. “Os órgãos governamentais teriam que se envolver. Países com frotas elétricas, como China e EUA, contam com subsídios do governo. E, ainda assim, na China somente 10% da frota total é elétrica”, compara, acrescentando que a indústria automotiva precisa de volume para ser acessível.
Outra surpresa veio por parte dos executivos. Ao serem questionados sobre a necessidade de repensar o papel da rede de concessionárias na construção do futuro da indústria, quase a totalidade (98%) respondeu afirmativamente, dividindo a mesma opinião de 72% dos representantes de concessionárias.
Perfil do consumidor
Também chamou a atenção, segundo Bacellar, a nítida mudança no perfil do consumidor, que está cada vez mais empoderado e esclarecido. “Isso por conta do farto acesso ao conteúdo proporcionado em tempo real pelas mídias sociais. Ele não é mais agente passivo das inovações determinadas pela indústria e assumiu o protagonismo dos movimentos do mercado”, afirma.
Diante disso, a pesquisa destaca o desafio da indústria automotiva em reposicionar sua estratégia de negócio, migrando do tradicional modelo product centric, no qual exercia o papel protagonista de decidir por si só o perfil dos seus produtos, para o modelo customer centric, no qual os consumidores assumem a figura de indutores/ coautores dos movimentos do mercado.
Neste cenário, mapear os aspectos que formam a percepção de valor do público e considerá-los de forma eficiente nas estratégias de concepção de seus próximos produtos torna-se um diferencial competitivo extremamente relevante, aponta o estudo.
Modelo e ambiente de negócios
“A indústria automotiva passa pelo mais profundo processo de transformação dos últimos 100 anos”, considera Bacellar. E muita mudança ainda está por vir – em todos os aspectos. No que diz respeito ao atual modelo de negócios, a maioria dos executivos entrevistados acredita que vai mudar radicalmente nos próximos dez anos.
A pesquisa traz que a maioria “reconhece nas startups e nos centros de pesquisa das universidades potenciais parceiros na construção do futuro ecossistema de negócios da indústria automotiva. Também, majoritariamente, o Rota 2030 foi apontado como incentivo para o setor continuar investindo em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D)”.
Sobre o ambiente de negócios, a carga tributária é percebida como um entrave à competitividade, impactando de forma significativa o preço final do produto. Para se ter uma ideia, segundo o Relatório Doing Business 2018, do Banco Mundial, o Brasil ocupa a 184ª posição no quesito pagamento de impostos entre 190 países pesquisados.
De acordo com o estudo, a principal razão para esse desempenho é a complexidade e as distorções da nossa legislação. As empresas brasileiras gastam cerca de duas mil horas por ano em atividades ligadas ao recolhimento de três categorias de tributos. Compreende-se porque quase metade dos executivos entrevistados apontou a reforma tributária como imprescindível para incrementar os resultados do setor, entre as alternativas propostas.
A reforma tributária foi escolhida pelos consumidores como o segundo fator mais importante para melhorar seu poder de compra, especificamente de veículos, só perdendo para o alto índice de desemprego atualmente verificado no País.
Hoje X Amanhã
Existe a formação clara de dois grupos de prioridades: um deles integra a “agenda de hoje”, enquanto o outro a “agenda do amanhã”.
Conforme esclarece o GAES 2019, na “agenda de hoje”, incluem-se as tecnologias de transformação, o aperfeiçoamento da eficiência energética de motores a combustão, a adequação ao ROTA 2030, a adoção de tecnologias de redução de custos e as tecnologias na gestão/integração de fornecedores.
À “agenda do amanhã” pertencem os veículos elétricos, as tecnologias nas redes de concessionárias, as parcerias com startups, os serviços de marketplace nos veículos e os serviços próprios de gestão de frotas/locação de veículos/mobilidade.
“Do perfeito equilíbrio entre a “agenda de hoje” e a “agenda do amanhã” depende a sobrevivência no curto, médio e longo prazos. E a julgar pelos resultados apurados, a opção pela “agenda de hoje” é prioritária, com o posicionamento dos itens relativos à “agenda do amanhã” em um plano não menos importante, mas ainda secundário neste momento”, conclui o estudo.
Infraestrutura
A infraestrutura também foi item abordado na pesquisa. O problema logístico decorrente do fato de a indústria estar dependente de um só modal de transporte, o rodoviário, constitui entrave à eficiência do setor produtivo brasileiro.
O estudo mostrou maciça concordância de que o País precisa investir em alternativas ao modelo atual. A opção mais citada pelos executivos é o investimento em malha ferroviária. Adicionalmente, as respostas indicaram que a alternativa ideal para esse investimento deve ser via parcerias público-privadas (PPPs), dado o sucesso alcançado em projetos anteriores.
De acordo com a Fundação Dom Cabral, com investimentos da ordem de R$ 300 bilhões em 10 a 15 anos, seria possível reduzir os principais gargalos e alcançar esse objetivo. Caso esses investimentos sejam concretizados, a economia anual em custos logísticos para todos os setores da economia nacional seria de R$ 31 bilhões.
Perspectivas promissoras
Apesar dos desafios próprios do mercado automotivo brasileiro, que inclui aspectos culturais, sociais, educacionais e econômicos, as perspectivas são promissoras. Ao comparar o Brasil com outros países, percebe-se que existe clara dificuldade em acompanhar as inovações, até mesmo por conta das crises econômicas e políticas. No entanto, Bacellar enxerga pontos muito positivos no povo/mercado brasileiro: “a voracidade em consumir tecnologias e a criatividade”. Além disso, na visão dele, a globalização também favorece, facilitando acesso ao que há de melhor.
Diante da realidade e dos resultados obtidos, há muitos desafios a serem enfrentados e muitos deles giram em torno da necessidade de reinventar, repensar, reconstruir e reorganizar as estruturas existentes.
Acesse a pesquisa na íntegra AQUI
.Paula Bonini