
No Brasil, o futuro das frotas corporativas é sustentável e por isso, carros elétricos e os biocombustíveis são importantes aliados
Há quase duas décadas, o debate acerca do desenvolvimento de uma companhia deixou de ser apenas econômico. Desde 2002, após a Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+10), as perspectivas ecológicas e sociais passaram a integrar os modelos de negócios das empresas comprometidas com a sustentabilidade. Contudo, de acordo com o Relatório da Frota Circulante no Brasil, do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças) e da Associação Brasileira da Indústria de Autopeças (Abipeças), em 2019, 69,5% dos veículos eram flex, 19,5% eram movidos à gasolina e 10% a diesel; os veículos híbridos e elétricos somaram 24.320 unidades – 0,1% da frota total.
De acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o Brasil importou, em 2019, 30 milhões de barris de gasolina e mais de 80 milhões de barris de diesel. Diante desse cenário, equilibrar a segurança dos condutores com o respeito ao meio ambiente é o grande desafio dos gestores de frota. Entre desafios, transformações e falta de políticas públicas, a tendência, para o futuro de uma frota corporativa sustentável, aponta para os biocombustíveis e os carros elétricos como importantes aliados.
No âmbito dos biocombustíveis, o etanol – decorrente da cana-de-açúcar e do milho –, o biodiesel – fruto de óleos vegetais ou gorduras animais – e o diesel verde – produzido a partir de gorduras de origem vegetal e animal, cana-de-açúcar, álcool e biomassa – são opções que precisam estar no radar dos gestores de frota atentos ao efeito estufa. De acordo com Erasmo Battistella, presidente da Associação Brasileira de Biocombustíveis do Brasil (Aprobio), os biocombustíveis são importantes porque emitem menos gases de efeito estufa – como o dióxido de carbono (CO₂), uma das principais substâncias resultantes da queima de combustíveis fósseis.
Nesse sentido, uma frota sustentável indica o comprometimento da corporação com iniciativas globais, como o Acordo de Paris, que visa diminuir, até 2030, a emissão dos gases de efeito estufa em todo o mundo. “Acompanhamos o quanto está sendo desafiador para a indústria automotiva, com as novas demandas, atender as metas de redução de gases de efeito estufa. Não acreditamos que os biocombustíveis vão solucionar sozinhos o problema. Vamos dar uma contribuição e ter uma parte de mercado, assim como os veículos elétricos terão outra parte” – analisa Battistella.
O professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), José Domingos Fabris, é doutor em Ciências/Química pela UFMG, e pós-doutor pelo Centre d’Études Nucléaires de Grenoble (França) e pela Birkbeck College (London University). Ele explica que o CO₂ cria na atmosfera um efeito de retenção de calor, formando uma espécie de garrafa térmica, aumentando a temperatura média do planeta. De acordo com o professor, o CO₂ liberado pelo biocombustível é reutilizado pela natureza e tende a não se acumular, ou seja, os combustíveis advindos da biomassa – toda matéria orgânica, de origem vegetal ou animal, utilizada na produção de energia – figuram como opções alinhadas aos anseios de quem deseja gerir uma frota sustentável.
Todavia, Fabris indica a diferença de rendimento entre motores movidos por biocombustível e àqueles movidos por combustíveis fósseis como um desafio a ser superado. Esse contraste é decorrente de uma maior liberação de oxigênio pelos biocombustíveis, uma vez que, quanto menos oxigênio no combustível, maior o rendimento. “O desafio é químico. É o que as indústrias químicas procuram fazer: retirar esse oxigênio da molécula, deixar só carbono e hidrogênio. É preciso envolver os pesquisadores, que estão em universidades, com as indústrias. Esse é o grande desafio para garantir uma tecnologia de futuro”, afirma o professor.
No Brasil, algumas empresas encabeçam o movimento rumo às frotas sustentáveis e servem de inspiração, como a Algar Telecom, eleita por sete vezes consecutivas como a empresa mais sustentável do Brasil no setor de telecomunicações. Gleison Oliveira, gestor de frota na companhia, salienta que esse reconhecimento é consequência das políticas de frota inteligente, que abarcam telemetria, gestão de combustível – com consumo majoritário de etanol –, o incentivo ao transporte alternativo, o processo de limpeza ecológica – que visa a melhor utilização da água – e o projeto “Carona Legal”, que fomenta a cultura da carona entre os colaboradores. “Tudo isso trata de um ecossistema baseado nos pilares ambiental, social e econômico. Temos um time de sustentabilidade muito ativo, então, todas nossas ações têm esse viés. O desafio é equalizar o econômico com o sustentável”, explica Oliveira.
Já Max Fernandes, diretor de Marketing e Comercial da Arval, explica a importância da empresa entender seu papel e sua responsabilidade na busca por uma economia sustentável. Sendo assim, a empresa auxilia seus clientes a cumprirem os objetivos estratégicos em relação à sustentabilidade, de modo a alcançarem uma mobilidade com baixas emissões de carbono, com responsabilidade social corporativa. Seja com a neutralização de CO₂ na frota atual, ou o incentivo ao uso de veículos flex, híbridos e elétricos, “estamos trilhando junto com nossos clientes esse caminho. A ambição da Arval é que até 2025 tenhamos 100% dos países que atuamos com soluções totalmente elétricas”, finaliza.
Revolução elétrica
Pioneira quando o assunto é a eletrificação de veículos, a Renault destaca-se como referência mundial, visto que a companhia pretende revolucionar o mercado europeu com carros elétricos acessíveis. Recentemente, o grupo Renault lançou o Dacia Spring, uma versão elétrica do Renault Kwid. No Brasil, o ZOE encabeça uma revolução – necessária – que está apenas começando. De acordo com Silvia Barcik, diretora de sustentabilidade e mobilidade elétrica do Instituto Renault, hoje, já são mais de 300 mil veículos elétricos da companhia rodando em todo o mundo, com mais de oito modelos diferentes. Em relação às frotas corporativas, Barcik avalia que “é um passo muito forte que as empresas dão, quando se comprometem publicamente para alcançar um impacto ambiental”, todavia, reconhece que o setor carece de políticas públicas no Brasil. “Nos países onde o carro elétrico está muito desenvolvido percebemos o incentivo dos governos. Toda tecnologia nova precisa desse apoio”, afirma.
Fonte: por Guilherme Popolin, para a 20ª edição da PARAR REVIEW.